Ao notar a proximidade do show da banda inglesa The Vaccines me apressei a comprar ingressos crendo que seria mais um show disputado com venda de ingressos inflacionados na porta. Entretanto para minha surpresa, toda vez que contava que ia à apresentação da banda inglesa, me deparei com diversas reações inusitadas de amigos e conhecidos. Manifestações do tipo “The o que?”, “Isabela para de inventar banda, nunca ouvi falar”, ou até mesmo “é tipo The Kooks?”. Nada me abalou e finalmente adquiri os ingressos com uma taxa um tanto quanto careiras – R$90,00 a meia entrada + 13,50 de conveniência + R$15,00 de Sedex. As taxas da preguiça e da comodidade.
Nota-se que ir em qualquer show exige um ritual, do momento em que você passa a semana toda escutando os discos da banda e fantasiando sobre sua música predileta sendo tocada ao vivo. Até a estratégia que você se dividirá em 500 para conseguir chegar no local, pois infelizmente (ou felizmente) o final de semana coincidiu com a tal Virada Cultural. De metrô seria tranquilo e levaria uma caminhada de 5 minutos em um sábado normal. Entretanto como a estação República estava tomada por pessoas, além de diversas ruas interditadas para os palcos da Virada. Tal cenário era de uma semelhança perturbadora com o apocalíptico filme de Will Smith, Eu Sou a Lenda. A maré desordenada e por vezes violenta de pessoas em uma metrópole devastada, não poderia deixar de me recordar a Nova Iorque do filme.
Depois de presenciar diversas brigas, atravessar a enorme quantidade de jovens consumidores das mais diversas substâncias, pedir orientação a policiais e anônimos mal humorados, acho o número 187 da Avenida São Luís. Dentro de uma grande galeria, você se perderia entre as lojas se não fossem os mais diversos meninos e meninas portando óculos a lá Buddy Holly, que te guiam até o local certo. Uma fila imensa para revista e entrada e apenas duas pessoas fazendo o serviço, não comportava a quantidade exorbitante de pessoas ansiando a entrada. Infelizmente aos obstáculos no meio do caminho, ao subir as escadas do charmosíssimo Grand Metropole, com a entrada toda espelhada e candelabros suntuosos, escuto os vocais de Justin Young e a música de abertura: No Hope.
A casa lotada, pessoas se amontoando nos degraus que separam as duas pistas, algumas no limite da escada, se viravam do jeito possível para aproveitar a ótima acústica e o som alto. Se você se aproximava do palco, entretanto notava que o espaço estava com a concentração exata de pessoas: não cheio o suficiente para que se tornasse impossível desfrutar do show nem vazio ao ponto de desanimar a multidão. O set de 21 músicas dos dois discos da banda, não conseguiam deixar ninguém parado. Entre palmas guiadas pelo guitarrista Freddie Cowan, o público animado entoava os refrãos dançantes e pulava à batida da bateria.
Segunda ocasião que a banda se apresenta no país, Justin, declara que nós somos a plateia mais barulhenta e mais divertida para se apresentar no mundo todo. Sem dúvidas ele diz isso para todas, é porém mais um dos truques de ganhar o público, já totalmente conquistada pela banda. Uma ótima apresentação que em alguns momentos, os instrumentos saiam de sincronia entre si, como no caso de Wetsuit, mas nada que fosse altamente perceptível pelo público completamente hipnotizadas pela energia do quarteto. Abriram espaço para apresentar uma música nova, a balada Melody Calling, em que o vocalista deixa de lado sua guitarra fiel e busca no violão apoio para a melodia mais calma, da música que parece ser o próximo single da banda.
Com o set mesclado com faixas dos dois discos, mesmo as menos conhecidas, como Family Friend e Weirdo, excelentemente executadas, deixam aquela vontade de que o show durasse mais duas horas. As brincadeiras das luzes no palco intimista, que deixavam a banda perto da plateia, sem os telões de shows maiores, dependendo da música ajudavam a criar o clima certo. Como no caso da All In White, em que o palco se tornou flashes de luz branca, e o público cantava com toda sua força a música inteira.
Ao término de Family Friend, os músicos saem do palco repentinamente e deixam a plateia órfã pedindo bis. A produção leva os instrumentos e o clima de incerteza beira as pessoas a tristeza. Um menino com pinta de hipster ao lado declara: “Não pode ter acabado assim. Não pode. É brincadeira deles, certeza. Eles sempre fazem isso”. E não é que nosso insider tinha razão, o primeiro a retornar ao posto, foi o baterista seguido de seus companheiros e um alvoroço de palmas e gritos vindos dos espectadores. Teenage Icon e a divertida Norgaard embalam o público pelos últimos minutos de um ótimo show. A banda se despede com um até logo dos palcos paulistas e são ovacionados uma última vez em solo nacional. Aqueles que não conheciam a banda, tem mais uma discografia para baixar, aqueles que já a conheciam passam a prestigiar não só a música, mas a performance como um conjunto todo. Assim, como há o "pré-show", há o "pós-show", tenho certeza que toda vez que passar pela região da Praça da República vou lembrar de um show intimista que vi em plena Virada Cultural.
Set List:
No Hope
Wreckin' Bar (Ra Ra Ra)
Ghost Town
I Always Knew
Wetsuit
Under Your Thumb
Tiger Blood
Melody Calling
All in Vain
Post Break-Up Sex
All in White
Wolf Pack
A Lack of Understanding
Aftershave Ocean
Blow It Up
Bad Mood
If You Wanna
Family Friend







